Um “inferno”. Era assim que Francisco Rodrigues, 39 anos, ouvia seus colegas se referirem ao trabalho de construção e montagem do maior campus de data center do Brasil, mantido pela empresa Scala Data Centers, em Barueri, São Paulo.

“Eles falavam que queriam ir embora daquele inferno. Eu até consegui suportar, mas teve momentos em que pensei em desistir”, conta o ex-montador, que diz ter enfrentado jornadas de setenta horas semanais ao longo de um mês — o que ultrapassa o limite que qualquer brasileiro pode trabalhar segundo a legislação, mesmo recebendo horas extras.

Um Data Center é um edifício ou um conjunto deles ocupados por computadores que armazenam e processam informações, dados e imagens disponíveis na internet. Eles também são a casa onde as respostas de ferramentas de inteligência artificial (IA) como o ChatGPT são processadas.

Agora, com a demanda por IA cada vez maior, Data Centers se tornaram uma infraestrutura essencial no planeta. Isso porque um software de inteligência artificial exige muito mais poder de processamento do que uma operação simples de busca no Google ou envio de e-mail, por exemplo.

O complexo da Scala em Barueri ocupa uma faixa de cerca de 600 metros às margens do Rodoanel Mario Covas. São nove edifícios, alguns com vários andares, que atendem “clientes de elite do setor” — entre eles a Amazon e a Oracle, conforme informações corporativas da empresa.

‘Teve momentos em que pensei em desistir’, relata Francisco Rodrigues, que enfrentava jornadas de 70 horas semanais

O Brasil é o principal mercado de Data Centers da América Latina. E a expectativa do governo federal, que trabalha pela aprovação de um

projeto

de lei que concede isenções fiscais para esses empreendimentos no país, é atrair R$ 2 trilhões em investimentos privados ao longo de dez anos, para a expansão do setor.

A promessa de geração massiva de empregos virou um argumento poderoso para essa indústria

, não só no Brasil, mas em todo o planeta. Em Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, onde a Scala pretende construir uma “cidade de IA”, a

promessa

da empresa é de gerar 3 mil postos de trabalho na primeira fase da construção.

Mas

a corrida por data centers está levando essa mão de obra ao esgotamento, segundo análise de 11 processos na Justiça do Trabalho

, entrevistas com trabalhadores e sindicalistas e consultas feitas ao Ministério Público do Trabalho pela

Agência Pública

.

Procurada pela reportagem, a Scala disse, em nota, que prioriza “a segurança, a saúde e o bem-estar das pessoas em todas as suas operações” e que exige o mesmo padrão de seus fornecedores e parceiros. “A companhia adota rigorosos processos que colocam a preservação da vida e da saúde das pessoas em primeiro lugar e constituem um dos pilares fundamentais da qualidade de suas operações”. A íntegra pode ser lida no final da reportagem.

Fachada do edifício da Scala Data Centers

“Pedia a Deus pra me mandarem embora”

“No começo, eu levantava feliz para ir trabalhar, mas depois de um tempo, pedia para Deus para que eu não tivesse mais que ir no Data Center, que eles me mandassem embora”

, lembra um homem de 44 anos que trabalhou como montador nas obras da Scala em Barueri e não quer revelar seu nome por medo de retaliações.

Ele deixou o serviço depois de um ano com gastrite crônica. “Eu estava no limite, aquilo estava me fazendo muito mal”, completa, referindo-se à pressão que sofria por produtividade

, o que incluía estender as jornadas além do combinado e negligenciar obrigações de segurança do trabalho para entregar tarefas mais rápido, segundo relata.

A Scala Data Centers é uma das líderes no mercado de Data Centers na América Latina: responde por aproximadamente um quarto da capacidade instalada no Brasil segundo seu demonstrativo financeiro (cerca de 200 MW do total de 800 MW

distribuídos

em todos os empreendimentos do tipo instalados em território nacional) e possui unidades também no Chile, no México e na Colômbia.

Seu plano de expansão inclui um estoque de terrenos de 1,2 mil hectares já adquiridos para a construção de novas unidades.

Apenas a unidade prevista para ser construída em Eldorado do Sul (RS), apelidada de “cidade dos data centers” ou “cidade da IA”, pode chegar à capacidade total de 4.750 MW — seis vezes mais do que todos os Data Centers instalados no Brasil até esse momento.

A Scala tem uma estratégia corporativa para crescer com essa velocidade. Conforme a empresa explica em seus …