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Um pensamento

atribuído a Frederic Jameson

e repetido por Slavoj Žižek e Mark Fisher, diz que, em nosso tempo, seria “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do Capitalismo”. A frase traz um diagnóstico crítico importante sobre a impossibilidade da imaginação e o sentimento perpétuo de que é impossível viver fora do atual sistema econômico e político dominante. A possibilidade de fim dessa ordem seria vivenciada apenas como o fim da humanidade em si e de seu mundo.

Talvez por esse motivo quase toda distopia apocalíptica conta com um roteiro semelhante, onde pessoas buscam reabilitar o mundo que foi destruído, e retornar para a “normalidade” conhecida – um desejo que se tornou universal durante a pandemia da Covid-19. Uma herança judaico-cristã, que aceita um deus, um mundo e, portanto, uma única “humanidade”. Se esquecendo que o mundo dos povos indígenas acabou muitas vezes desde 1492 mas seguem resistindo e nos ensinando a sobreviver o fim de mais esse mundo.

Sejam reformistas ou revolucionários, tanto os defensores quanto os falsos críticos da ordem parecem concordar que os rumos do Capitalismo ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Porém sua disposição para acabar com as estruturas de dominação encontram limites no Estado e nos seus aparelhos repressores. De

jacobinos a bolcheviques

, de sociais-democratas a

fascistas

, a disputa parece ficar em torno da questão de que para superar o Capitalismo (ou o “sistema”) é necessário tomar o poder através de um “governo revolucionário” (e sua polícia). A questão parece ser sempre a de quem detém o controle de suas estruturas – e não a destruição das instituições que perpetuam a destruição de nossas comunidades e do meio ambiente.

Fica claro que críticas vindas da esquerda e das classes oprimidas muitas vezes evitam debater e promover ações que apontem para o fim da polícia e das prisões porque consideram que estas serão necessárias quando for sua vez de assumirem o comando por meios revolucionários ou da ocupação gradual dos postos de direção política. Afinal, quem vai impor as decisões do novo governo, do partido que “representa a classe” e seu comitê central?

Não é por acidente e nem deveria surpreender que movimentos revolucionários vitoriosos que se dedicaram a erguer sua própria polícia e a desenvolver seus aparatos repressivos, passaram a conduzir sua própria contrarrevolução e voltaram suas armas para as camadas populares que ajudaram a derrubar o regime anterior. Sem uma polícia e toda uma organização militar própria e secreta, os Bolcheviques não conseguiriam tomar grãos de camponeses à força, reprimir greves e massacrar camaradas socialistas e anarquistas que protestavam contra seus abusos.

Por compreenderem isso no seio da própria luta, anarquistas, desde Bakunin, diferenciam a revolução social, que derruba Estado e Capital em favor da ação direta e da autogestão, de uma revolução política; que entrega o controle do Capital ao Estado, dirigido pelos burocratas iluminados (e um tanto depressivos) da revolução e do partido que governa em nome dos trabalhadores.

* * *

Desde o surgimento do que entendemos por uma polícia moderna, na Inglaterra do século XIX, sua função era o de disciplinar as massas trabalhadoras e controlar as camadas excluídas e miseráveis. Quando empregar em seu próprio território um exército treinado para guerras contra inimigos externos parecia ser brutal e ineficiente, a polícia surge como uma força mais amena de profissionais empregados para defender a propriedade e agir contra o ameaças internas à paz: greves, rebeliões e movimentos sindicais.

Nas chamadas Américas, onde as sociedades foram fundadas sobre o colonialismo e a escravidão, as polícias surgem como uma extensão das forças que capturavam e mantinham pessoas escravizadas. Nunca foi seu objetivo prevenir o crime, mas governar garantindo que apenas os comportamentos de certos grupos sejam criminalizados e punidos com base não apenas na cor da pele e no pertencimento de classe, mas também no gênero, idade, profissão (ou a falta dela). Mesmo se você não tiver nada, a polícia estará lá. Ela é o patrão de quem não tem emprego ou casa. Para isso, as elites no poder recrutam entre a massa empobrecida pessoas dispostas a defender seus interesses em troca de dinheiro e respeito. São traidores da classe dispostos a ferir sua comunidade por um salário e o poder que uma arma na mão pode lhe dar.

A chamada “Guerra às Drogas” trouxe …