Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Ligando os pontos, enviada toda quinta-feira. Para receber as próximas edições,
inscreva-se aqui
.
Estava marcado para ontem, dia 12 de agosto, no Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento de ações diretas de inconstitucionalidade contra a Lei Geral do Licenciamento Ambiental
(Lei 15.090/2025)
, que entrou em vigor em fevereiro. A matéria está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que deve avaliar se a legislação está de acordo com o Artigo 225 da Constituição, segundo o qual cabe ao poder público e à coletividade “o dever de defender o meio ambiente e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Apesar das expectativas da sociedade civil pelo julgamento, as três ações foram retiradas das pautas sem explicações e não há, por enquanto, informações de quando voltarão ao plenário do STF. O tema, entretanto, é urgente, uma vez que a legislação em vigor já está causando danos reais.
Enquanto tramitava no Congresso, o texto da nova lei do licenciamento foi apelidado de “Projeto de Lei da Devastação” e ficou conhecido como “a mãe de todas as boiadas”. Isso porque seu potencial destrutivo é enorme, já que elimina várias etapas de avaliação dos impactos ambientais de grandes obras. Estamos falando de projetos de infraestrutura, como estradas e hidrelétricas, ou a instalação de empreendimentos de mineração e exploração de petróleo, que agora podem ser aprovados sem estudos e sem medidas compensatórias.
O afrouxamento da lei foi negociado pelas bancadas retrógradas do Congresso sob a relatoria do ruralista Zé Vitor (PL-MG) na Câmara e apoio direto do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União -AP). Este, claro, está de olho nos benefícios da exploração de petróleo na costa de seu estado, o Amapá.
Ao sancionar a nova lei, o presidente Lula vetou vários artigos, mas eles foram derrubados pelo Congresso. Na prática, o que está valendo agora no Brasil é quase um auto-licenciamento, desprezando consulta às comunidades afetadas e a proteção de áreas protegidas ou de biomas sensíveis como a Mata Atlântica. No momento em que apresentaram a ação de inconstitucionalidade no STF, o Observatório do Clima junto ao PSOL, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e outras 11 organizações apontaram este
como o maior retrocesso ambiental em 40 anos
.
O atropelo revelou o profundo conflito que historicamente existe por trás do licenciamento ambiental no Brasil. Instituído pela Política Nacional do Meio Ambiente em 1981
(Lei 6938)
, o instrumento foi sempre demonizado por presidentes da República, parlamentares e claro, pelo setor produtivo, que o consideravam como uma barreira ao desenvolvimento e ao crescimento econômico. Tanto foi criticado que, com a atualização da lei, congressistas armaram verdadeiros golpes baixos, criando mecanismos como a Licença Ambiental Especial, que estabelece prazos irreais aos órgão reguladores.
Falar ao Ibama que deve aprovar
em 12 meses
uma estrada cortando a floresta amazônica é fácil. Mas em nenhum momento se discutiu a aprovação de orçamentos maiores para capacitar os órgãos ambientais ou contratar mais servidores. Ao longo dos últimos anos, a queda no quadro de fiscais e servidores do Ibama foi brutal. Em comparação a 2014, o
número de funcionários é 30% menor
.
Nunca fui funcionário público, mas muitas vezes me peguei pensando como me sentiria se fosse um servidor do Ibama e as autoridades de ocasião resolvessem jogar no lixo os meus pareceres técnicos. Penso nisso porque essa tem sido uma prática comum, não importa a cor do governo: durante a avaliação de um projeto, os técnicos indicam vários problemas, mas esses alertas são desconsiderados e, num canetaço, um ministro, presidente ou governador decide que obra vai em frente.
Vimos, seja nos governos de Lula, Dilma, Temer ou Bolsonaro, que a política e os interesses econômicos se impõe às análises objetivas. O problema é que, ao desrespeitar o rito de avaliação dos impactos ambientais, gestam-se consequências duríssimas. São hidrelétricas que funcionam com metade da capacidade de geração de energia, povos indígenas que perdem áreas de pesca e caça e populações deslocadas por enchentes descomunais, só para mencionar alguns efeitos irremediáveis.
A minha empatia por esses servidores do Ibama começou há vinte anos quando ocorria a grande polêmica em torno do licenciamento das hidrelétricas no rio Madeira, em Rondônia …